Notícias
Opinião: “A importância estratégica da formação profissional na era da Inteligência Artificial, da escassez de mão-de-obra e do envelhecimento demográfico”Ambitur
Joaquim Robalo de Almeida - S.G. ARAC
A formação profissional assume hoje uma relevância estratégica sem precedentes. A transformação tecnológica acelerada, impulsionada pela inteligência artificial, a escassez de mão de obra, a falta de profissionais especializados e o envelhecimento demográfico europeu estão a alterar profundamente o mercado de trabalho, os modelos de negócio e as competências necessárias para assegurar competitividade, produtividade e sustentabilidade económica.
A falta de competências é atualmente um risco sistémico para a competitividade europeia. Não se trata apenas de uma dificuldade pontual de recrutamento, mas de um constrangimento estrutural que limita a capacidade das empresas para crescer, inovar, digitalizar processos e competir em mercados cada vez mais tecnológicos. Numa economia baseada no conhecimento, a ausência de profissionais qualificados transforma-se num fator de bloqueio ao desenvolvimento.
A inteligência artificial deixou de estar limitada a setores tecnológicos. Está hoje presente na gestão administrativa, no atendimento ao cliente, na logística, na análise de dados, na manutenção preditiva, na gestão financeira, no marketing, na mobilidade e nos serviços. Permite automatizar tarefas repetitivas, reduzir erros, acelerar processos e melhorar a tomada de decisão. No entanto, a IA só cria valor quando é compreendida, supervisionada e bem integrada por profissionais qualificados.
Por isso, a questão central não é saber se a IA substituirá pessoas, mas perceber que os profissionais e as empresas capazes de a utilizar de forma inteligente terão uma vantagem competitiva crescente. A formação profissional torna-se, assim, indispensável para desenvolver competências técnicas, digitais e humanas: literacia em IA, análise de dados, utilização de plataformas tecnológicas, pensamento crítico, comunicação, adaptação, ética e orientação para o cliente.
Este desafio é agravado pela escassez de mão de obra em vários setores da economia europeia, como turismo, transportes, construção, indústria, saúde, tecnologias de informação, manutenção técnica, logística e serviços. A esta escassez quantitativa soma-se uma escassez qualitativa: faltam profissionais com competências adequadas às exigências atuais, sobretudo em áreas técnicas, digitais e operacionais.
O envelhecimento da população europeia intensifica esta pressão. A redução da população em idade ativa e a saída progressiva de trabalhadores experientes diminuem a força de trabalho disponível e aumentam a necessidade de ganhos de produtividade. Torna-se, por isso, essencial requalificar trabalhadores, prolongar vidas profissionais, acelerar a formação dos mais jovens e assegurar a transferência de conhecimento entre gerações.
O problema é ainda agravado pelo desalinhamento entre o sistema educativo e o mercado de trabalho. Em muitos casos, a formação inicial continua demasiado afastada das necessidades concretas das empresas. A velocidade da transformação tecnológica supera a capacidade de atualização dos currículos tradicionais. Daí a importância de reforçar o ensino profissional, a formação dual, a aprendizagem em contexto de trabalho e as parcerias entre empresas, escolas, centros de formação e associações setoriais.
No setor automóvel e, em particular, no rent-a-car, esta realidade é especialmente evidente. A atividade deixou de assentar apenas na disponibilização de viaturas e passou a integrar tecnologia, dados, sustentabilidade, experiência digital do cliente e gestão inteligente de ativos. A digitalização da reserva, do check-in, dos contratos, dos pagamentos e do apoio ao cliente exige novas competências comerciais, operacionais e digitais.
Também a gestão de frotas baseada em dados e IA transforma profundamente o setor. A previsão da procura, a otimização da utilização dos veículos, a gestão dinâmica de preços, o controlo de danos, a rotação de frota e a manutenção preditiva exigem profissionais capazes de interpretar informação, utilizar sistemas tecnológicos e tomar decisões assistidas por dados.
A transição para veículos elétricos acrescenta outro nível de exigência, impondo conhecimentos sobre autonomia, carregamento, infraestrutura, manutenção específica, custos de utilização e aconselhamento ao cliente. Do mesmo modo, a automação de processos operacionais — faturação, gestão documental, reservas, sinistros e reporting — exige trabalhadores preparados para compreender, controlar e melhorar sistemas.
Assim, a formação profissional não deve ser vista como um custo, mas como um investimento estratégico. Para as empresas, permite aumentar produtividade, melhorar o serviço, reduzir a dependência de recrutamento externo, reter talento e adaptar-se à mudança. Para os trabalhadores, reforça a empregabilidade e a capacidade de evolução profissional.
Em conclusão, a Europa enfrenta simultaneamente uma revolução tecnológica, escassez de mão-de-obra, falta de profissionais especializados e envelhecimento demográfico. A IA pode ser parte da solução, mas apenas se for acompanhada por uma estratégia sólida de qualificação. A formação profissional é, por isso, o elo essencial entre tecnologia, pessoas e competitividade.
Publicado na edição 359 da Ambitur.