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Mobilidade flexível ganha terreno nas empresas
Vida Económica - Frotas


O mercado de aluguer automóvel atravessa uma fase de maturidade, com maior disponibilidade de viaturas, procura consistente e pressão sobre as margens. Joaquim Robalo de Almeida, secretário-geral da ARAC, sublinha que as empresas procuram “previsibilidade de custos, flexibilidade contratual, eficiência operacional, soluções digitais, apoio à transição energética e capacidade de resposta rápida”. A transição energética é um desafio central do setor, mas deve ser feita de forma “pragmática, faseada e economicamente sustentável”.

Vida Económica - Como avalia o atual estado do mercado de aluguer automóvel em Portugal, especialmente no segmento empresarial e de frotas?
Joaquim Robalo de Almeida - O mercado de aluguer automóvel em Portugal atravessa uma fase de maturidade, mas também de forte compressão competitiva. Depois da escassez de viaturas, volatilidade dos preços e reorganização das cadeias de abastecimento, o setor entrou noutra etapa: há maior disponibilidade de produto, capacidade de renovação de frota e procura consistente, mas as margens continuam pressionadas por custos operacionais elevados, exigência financeira e maior sofisticação dos clientes. No segmento empresarial e de frotas, esta evolução é evidente. As empresas procuram hoje mais do que veículos: previsibilidade de custos, flexibilidade contratual, eficiência operacional, soluções digitais, apoio à transição energética e resposta rápida. O automóvel deixou de ser apenas transporte e passou a instrumento de produtividade, gestão de risco e política de mobilidade. A procura mantém-se sustentada pelo turismo, mas o rent-a-car já não pode ser lido apenas por essa lente: o peso das empresas, PME, contratos de média duração, soluções de substituição, renting operacional e mobilidade flexível mostra uma atividade estrutural para a economia.
O principal desafio está na rentabilidade. A disponibilidade de viaturas aumentou, mas também os custos de financiamento, aquisição, manutenção, recursos humanos, seguros, tecnologia e conformidade regulatória. Crescer em volume já não basta. O setor terá de crescer melhor: com mais disciplina de preço, melhor gestão de frota, maior utilização média dos veículos, canais digitais mais eficientes e modelos contratuais ajustados às empresas. A eletrificação é outro ponto crítico. Existe pressão para renovar e descarbonizar frotas, mas a adoção em larga escala continua condicionada pela infraestrutura de carregamento, custo de aquisição, autonomia, valor residual e adequação dos veículos elétricos aos perfis de utilização. A transição energética é inevitável, mas terá de ser pragmática, faseada e economicamente sustentável.

VE - Quais são hoje os principais desafios enfrentados pelas empresas de rent-a-car e gestão de frotas em matéria de custos operacionais e renovação de viaturas?
JRA - Hoje, nas empresas de rent-a-car, rent-a-cargo e aluguer de longo prazo, o principal desafio económico resulta de a frota ser o maior ativo das empresas e absorver a maioria do capital investido. A rentabilidade depende da capacidade de gerir esse ativo com rigor financeiro. O primeiro problema é o elevado custo de aquisição das viaturas. Os preços aumentaram devido à inflação industrial, ao custo das matérias-primas, à incorporação de tecnologia e às exigências ambientais dos fabricantes e da regulamentação europeia. Associado a isso surge o custo financeiro da frota. Como as empresas financiam grande parte das viaturas através de crédito, leasing ou ALD, o aumento das taxas de juro teve impacto direto nos encargos financeiros. Num setor com milhões de euros imobilizados em frota, pequenas variações nas taxas representam milhões de euros adicionais por ano. Mas o elemento mais crítico é a depreciação das viaturas e a incerteza dos valores residuais. O negócio do rent-a-car não depende apenas da receita do aluguer; depende também da venda das viaturas no final do ciclo por valores que preservem margem.
Se o valor residual baixa mais do que o previsto, a perda financeira pode anular a margem operacional do aluguer. Ao mesmo tempo, os custos de exploração da frota aumentaram fortemente. Seguros, pneus, peças, manutenção, reparações e mão de obra especializada estão mais caros. A complexidade tecnológica encarece reparações e aumenta o tempo de imobilização. Outro desafio é a utilização eficiente da frota. Uma frota excessiva ou mal dimensionada gera veículos parados, menor taxa de utilização e pressão sobre os preços. Como os custos financeiros e de depreciação continuam mesmo quando a viatura está imobilizada, qualquer quebra de ocupação afeta a rentabilidade.
A isto junta-se a transição energética, simultaneamente necessidade e risco. As empresas são pressionadas a introduzir veículos elétricos e híbridos nas frotas, mas estas viaturas têm custos de aquisição mais elevados, maior incerteza quanto ao valor residual, dependência de infraestrutura de carregamento e riscos de rápida obsolescência tecnológica.

VE - De que forma a eletrificação das frotas está a impactar o setor e quais são os maiores entraves à adoção de veículos elétricos pelas empresas?
JRA - A eletrificação das frotas está a impactar o rent-a-car de forma relevante, mas a adoção continua limitada pela fraca procura dos clientes. No rent-a-car, o cliente procura facilidade, rapidez e liberdade de circulação. Muitos evitam veículos elétricos porque receiam não encontrar postos disponíveis, perder tempo em carregamentos e ficar limitados pela autonomia.
A preocupação é agravada pelo facto de a autonomia real ser muitas vezes inferior à anunciada, sobretudo em autoestrada, com ar condicionado, carga, frio ou condução exigente. Para as empresas, isto cria um problema económico: os elétricos têm normalmente custo de aquisição mais elevado, mas podem ter menor taxa de utilização, porque muitos clientes ainda preferem viaturas a combustão ou híbridas.

VE - Considera que Portugal tem atualmente infraestruturas e incentivos suficientes para apoiar a transição energética nas frotas automóveis?
JRA - Portugal ainda não dispõe de infraestruturas nem de incentivos robustos para apoiar a transição energética das frotas. Apesar da evolução dos últimos anos, a rede de carregamento continua limitada, sobretudo fora dos grandes centros urbanos e nos períodos de maior procura turística. Para o cliente de rent-a-car, disponibilidade dos postos, rapidez do carregamento e simplicidade de utilização continuam longe da conveniência dos veículos de combustão. Muitos postos apresentam ocupação, indisponibilidade ou velocidades inferiores ao esperado. Ao nível empresarial também há dificuldades. A instalação de carregadores nos parques de frota implica investimento elevado, aumento dos custos operacionais, capacidade elétrica, adaptação logística e gestão mais complexa. Quanto aos incentivos, embora existam benefícios fiscais e apoios à aquisição, continuam insuficientes para compensar o elevado custo dos veículos elétricos;
No setor do rent-a-car torna-se fundamental a existência de apoios públicos mais robustos à transição energética, quer para aquisição de veículos elétricos quer para instalação de infraestrutura de carregamento, nomeadamente através do Fundo Ambiental. É igualmente necessária uma fiscalidade mais ajustada à realidade económica do setor, permitindo, por exemplo, períodos de amortização mais curtos para os veículos elétricos.

Transformação da mobilidade empresarial

VE - Que tendências prevê para a mobilidade empresarial nos próximos três a cinco anos, nomeadamente no que respeita a modelos de subscrição, car sharing ou utilização flexível de viaturas?
JRA - Nos próximos três a cinco anos, prevê-se uma transformação significativa da mobilidade empresarial, marcada por procura de soluções mais flexíveis, digitais e ajustadas às necessidades de empresas e utilizadores. Os modelos tradicionais de posse da viatura tenderão a perder peso face a soluções de “mobilidade como serviço”, incluindo subscrição automóvel, utilização flexível, car sharing corporativo e aluguer de curta e média duração.
As empresas procurarão reduzir custos fixos, aumentar flexibilidade operacional e adaptar as frotas à atividade económica. Neste contexto, o rent-a-car assumirá papel relevante, pela capacidade de disponibilizar mobilidade imediata, flexível e sem investimento direto. Paralelamente, o rent-a-cargo deverá ganhar importância, impulsionado pelo comércio eletrónico, distribuição urbana, logística de última milha e necessidades flexíveis de transporte.
Muitas empresas tenderão a privilegiar aluguer flexível de comerciais em vez de frota própria, permitindo eficiência operacional e adaptação. O car sharing e os modelos de utilização partilhada deverão evoluir, sobretudo em ambiente urbano e empresarial, embora dependentes de infraestrutura, digitalização, densidade urbana e alteração dos hábitos de mobilidade.